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quinta-feira, 5 de julho de 2007

a matrícula.

Quando estou com a Germana podemos falar sobre qualquer coisa: música, política, moda, comportamento, sexo, beleza, culinária, porque os nossos papos sempre nos levarão a nossa futura vida universitária:
- Quem serão os nossos professores?
- E quais deles odiaremos?
- E o trote?
- Eu quero com tudo! Dinheiro no sinal, tinta guache...
- Eu não! Quero só as aulas!
- Será que a gente vai querer assistir todas ou matar todas?
- Acho que matar, né?
- Sem falar do pessoal. Cara, eu queria uma turma bem unida!
- Pior que sempre tem um filho da puta...
- Se não for uma de nós, acho que tudo bem.
- Verdade.

Talvez um pouquinho dessa especulação tenha acabado com o gostinho da nossa inscrição.
Fui dormir tarde e acordei bem cedo pela ansiedade que me toma a qualquer acontecimento importante, lembrando antes de sair de casa das minhas carteiras de estudante e identidade que não estavam comigo pelo cinema de sexta e minha roupa sem bolsos.
- Pai... Eu preciso que o senhor vá ali antes comigo.
- Ali onde?
- Ali.
Meu nervosismo devia estar tamanho que ele não falou nada ao que normalmente reclamaria horrores.

No DEG [Departamento não-sEi-oque-lá de Graduação], enquanto eu preenchia meu formulário, tentava adivinhar o curso daquelas pessoas apenas pelos seus rostos e o quão certas elas estavam das escolhas delas – e eu das minhas.
Lembrei de um amigo do cursinho que ia tentar Medicina (e acabou conseguindo) e da vez que eu perguntei a razão dele escolher seu curso:
- Eu não saberia fazer outra coisa.
E naquele instante até hoje eu penso que poderia fazer tanta coisa que tenho até medo de acabar não fazendo nada.

- Próximo.
A mulher simpática checou meus documentos e me descobriu sem a xérox da certidão de nascimento.
- Mas vamos ver se você só esqueceu isso.
E eu lembrei da minha foto 3x4 em casa, mas a vergonha me possuiu de uma forma que eu fingi procurá-la na minha pasta e para dizer: perdi.
Disse com uma carinha de coitada que se não soubesse do que estava acontecendo, ia até sentir pena do jeito que eu acho que ela sentiu, pois começamos a procurar juntas e quanto mais ela procurava, mais vergonha eu sentia e quanto mais vergonha eu sentia, mais eu pensava que precisava sustentar minha mentira!
- Deixa moça. Eu volto em casa e pego outra.
Ao voltar reparei em algumas pessoas que estudarão comigo e que hoje não passam de estranhas.
Tentei mensurar o quanto nossas vidas vão mudar começando por um ‘bom tarde’ trazido de casa para quebrar o silêncio, para mais tarde virarem conversas de risos frouxos, desabafo ou discussões. Pensei também em quantas pessoas estou para conhecer, dos famosos “não crie expectativas” e de que, de certa forma, é impossível não criá-las.
Em seis meses a minha vida foi de uma moleza incrível e de um tédio insuportável. E em seis meses vai ser tudo tão novo que eu não consigo nem pensar.
O que me aguarda? Ou será que eu que estou aguardando?

- Seja bem vinda e boa sorte - a moça disse pra mim, como já tinha dito para todos os que havia atendido antes.
Recebi a grade curricular, reclamei por ser tão pouquinho e ri com ela ao concordarmos que a minha opinião pode mudar em pouquíssimo tempo.
- De qualquer forma – ela me disse um pouco antes de me levantar - boa sorte!

[A melhor coisa do futuro é o fato de chegar um dia de cada vez] Abraham Lincoln