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segunda-feira, 9 de julho de 2007

vó Zefa.

Às vezes ela aparece com uma expressão preocupada e me diz num tom baixinho, como quem conta um segredo:
- O seu avô! Hoje ele não falou nada... Eu até pergunto as coisas pra ver se ele responde, mas nem isso... O que será?
E então eu digo que é assim mesmo, que tem dias que a gente quer ficar calado, pensando na vida.
Noutras vezes ela vem com um ar irritado, esbravejando:
- O seu avô! Falando como um louco pela casa. Sozinho! Eu já mandei calar a boca, mas quem disse que cala?
Eis a minha avó.

Mas a contradição veio desde sempre porque ao nasceu, morreu sua mãe. E por mais que não exista na sua memória uma recordação só sua, sem traços alheios, sem narrações de outros autores, ela a ama de tal forma que nada faz esse amor menor.
- Às vezes eu queria ser um passarinho só pra sair voando.
- E pra onde a senhora ia, vó?
- Pra todos os cantos! Para lugares que eu nunca fui... E também que estive pra saber como estão.
E então eu vejo naqueles olhos claros e distantes ela passeando pelo seu mundo de memórias.
Fala dos seus tempos de criança, da escola, palmatória e do quanto doía estudar!
- Relembrar o passado é sofrer duas vezes – me diz.
- Ou ser feliz duas vezes – eu digo.
- Depende da estória.
E fala coisas da semana passada como se fossem de décadas atrás e coisas de décadas atrás como se fosse da semana passada. Quando envelhecer, quero minhas estórias no meu rosto também!
Essa semana a vó Zefa fez oitenta e cinco anos. ;)


[Os anos ensinam muita coisa que os dias desconhecem] Emerson