domingo, 19 de agosto de 2007

frutos do segundo semestre.

- Sabe, Gê, dizem as más línguas que as pessoas de Comunicação-Social não batem bem da cabeça!
- Será?
- Eu tinha as minhas dúvidas quanto, mas, andei pensando... Talvez nós estejamos sendo vítimas de um grande complô.
- Continue.
- Porque se você parar pra pensar, depois da tortura natural do vestibular nós, vítimas indefesas do segundo semestre, fomos forçadas a mergulhar nesse tédio profundo e quando finalmente nos acostumamos com a ociosidade, BUM, nós nos iludimos com a matricula porque desde a inscrição até as aulas foram quase dois meses e ao começar virá a dura prova de resistência, onde muitos não suportarão e os que resistirem serão cada vez mais afetados por aquilo que a sociedade chama de insanidade.
Depois de pensar a respeito, a Germana concordou comigo.
- Só que você precisa ser forte, amiga. Nem começou e você já está se entregando à loucura?
- É verdade! Droga!

E apesar da emboscada, nós concordamos que iremos até o fim! Seremos forte, estudaremos bastante para dominarmos os meios comunicativos do Estado.
Germana acredita que eu apresentarei o ‘Mete Bronca’ e eu boto fé nela no ‘Roda Viva’. Bem, agora que eu conheço a Bruna com todo o seu potencial, estou pensando em incluí-la nesses planos maquiavélicos e lançá-la como âncora do ‘Barra Pesada’ [o que acha Dona Castelo Branco?].
Eu sei que é muita ambição, mas ninguém disse que vai ser fácil!
E quanto a você – pobre criatura manipulada pelas nossas notícias – morra de inveja dos nossos futuros brilhantes! \0/

Ps: Para quem não está entendendo nada eu falando de Filosofia e falando do Comunicação-Social, explico: tenho ambições supremas de estudar os dois. Ao mesmo tempo!
Pss: Eu juro que corto relações para aqueles que perguntarem: "os dois cursos? você vai conseguir? como?". Não aguento mais ouvir isso! ¬¬

[Dê-me um ponto de apoio e moverei o mundo] Arquimedes

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

volta às aulas.

- Só tem doido, só tem doido! – ela falava não num tom alto, mas suficiente pra ser escutado por mim, ao seu lado.
- E você tem alguma graduação ou é a primeira? – a professora perguntava a cada um, numa daquelas apresentações de praxe em início de aulas.
- Sim, eu me formei em Teologia, mas como eu me descobri filósofo e vi que o que eu queria mesmo era a Filosofia, nem peguei meu certificado. – foi a resposta de um dos alunos.
- Esse aí está no curso certo! Só tem doido, só tem doido! – foi a observação da minha colega de classe.
Dali a um tempo, num intervalo qualquer, ela indaga a razão de eu cursar Filosofia.
- Eu adoro... De paixão!
- Tô falando? Só tem doido, só doido!
- Ué, você não gosta?
- Eu estou aqui só que eu quero Psicologia.
- Psicologia? E por que você optou por Filosofia?
- Bem, eu quero primeiro ficar louca pra depois entender os loucos.
- Mas Psicologia não trata de loucos...
- Trata sim. E a minha idéia é entrar na cabeça das pessoas com a Filosofia, porque todo filósofo quer dominar o outro com o pensamento.
- É, eu acho que você está no curso certo!

Mas nãão. Filosofia até que tem algumas pessoas normalzinhas! O problema é que, de fato, sempre tem um doido (como na Física sempre tem um aluado, na História um consumidor da cannabis e na Medicina um nerd) e por essas criaturas todas as outras pagam a conta!

Ps: Porque ninguém nunca disse que nós falimos com a xeroxs? o.O

[Apenas sei que vivo, sem saber o que é viver, num mundo onde sinto e penso que há um segredo profundo] Sofia Lima

terça-feira, 31 de julho de 2007

sonho bom.

- Mas você decidiu pra que vai prestar vestibular?
Ele com um sorriso malandro responde:
- Se tivesse pra Vagabundagem eu faria.
E os outros com olhares cúmplices concordaram:
- Oh, quem não o faria?
- Sem dúvidas, seria o curso mais concorrido de todos!
- Até porque quem passasse teria a vida ganha!
- E seria um exemplo! Um orgulho!
- Além do quê, com o diploma na mão a pessoa ainda teria direito a cela especial, caso fosse preso.
- Aí, pra Vagabundagem eu estudava. E bem muito!
E ao ouvir isso, ela interrompeu abruptamente:
- Mas gente, o vestibular pra esse curso não poderia ser convencional.
A declaração, embora curta, bastou para começar a polêmica e os protestos.
- Como que no?? – perguntavam incrédulos.
- Lógico que não! – ela se defendia – Somente pessoas com o verdadeiro dom poderiam cursá-lo. Seria um processo específico e rigoroso.
- Sim, mas de que tipo? – veio a pergunta desconfiada.
- Com provas práticas, inclusive. E questões de altíssimo nível.
- Você é louca?
- Não, estou sendo realista! Qual sentido cobrar que a pessoa saiba como funciona a energia ATP ou se o movimento de um objeto qualquer é constante ou variado se, na verdade, tudo o que ela não precisa é de base e, sim, conhecimentos específicos?
- Conhecimentos específicos?!
- É! Por exemplo: qual das alternativas é mais apropriada pra um legítimo vagabundo em plena segunda-feira?
a) acordar meio-dia.
b) acordar cedo, comer, assistir televisão e voltar a dormir.
c) colocar o despertador pra que possa aproveitar a manhã jogando vídeo-game.
d) chegar em casa seis da manhã depois de uma festa que começou no sábado.?”

E de forma pensativa, todos concordam como seria uma seleção difícil.
- Marcava letra A.
- Não... É a D. Vagabundo que é vagabundo volta de manhã da farra!
- Eu tiro por mim, gente. Acordar, comer, ver TV e dormi é praxe.
- Mas será que é uma rotina constante? Será que isso deve ser levado em consideração?
- Porque a lógica conta, não conta?

E por mais que eu tenha bolado a questão, confesso que não me atrevo a assinalar uma alternativa com total segurança. Mas sei que o que ia aparecer de recurso nesse vest, besta não contava! ;)

[O teu saber pouco vale se ninguém souber que tu sabes.] Pérsio

segunda-feira, 30 de julho de 2007

no mundo.

- Leva a gente, tia?
- Vocês não têm carona, não?
- Tá difícil. Foi decidido agora. Leva mãe!
Ela desconversa, desanda, enrola e a gente sente que não rola.
Mas tudo bem. Está tudo bem.
Voltamos pro quarto, colocamos uma música e deitadas na cama poderíamos seguir a madrugada inteira conversando.
- Cadê aquela tequila mexicana legítima que tua irmã trouxe?
- Você quer?
- O quê você acha?
- Que precisamos sair. Bora?
Bora!
É só dar tempo de tomar banho, escolher a roupa e sair de casa na ponta dos pés.
- Mas tua mãe não vai brigar por sairmos sem avisar?
- Nós só saberemos quando voltarmos.
Rua deserta. Está ela, eu e a Tequila - a Mexicana, todas nós rumo África - a boate.
- E num futuro não tão distante podemos pensar “nazóropa”, falamos rindo, seguras e felizes.
- Seguras mesmo! Amiga, é tarde, está deserto, está escuro... E eu não sinto um pingo de medo!
E só terminar de falar e ver um carro passar devagarzinho sai de forma involuntária:
- Ai, Dê, socorro, tô com medo, tô com medo, tô com medo!
Não demora nada, chegamos aonde queríamos e: ninguééééém!
- Mas é a gente que faz a festa, né?
Então pronto.
Nós balançamos o esqueleto no dance, trance, mas só nos animamos a chegada do funk:

“e vai descendo, descendo, perdendo a linha devagar
e vai subindo, subindo, ela não pára de dançar”.

Acaba a música, acaba o funk, acaba a vontade de estar ali. Eu olho, ela entende, nos despedimos e saímos contabilizando a noite.
- Porque ainda assim conseguimos voltar pra casa de manhã! São duas e meia!
- Verdade! Ninguém disse amanhecendo!
E o silêncio da madrugada é cortado pelo eco de nossas vozes...

E quando eu penso que num final de semana a gente apronta uma dessas e no outro você se mandou, dói no coração.
- Mas eu não estou morrendo. Eu estou só indo embora!
Eu sei, nega. É só drama. É só saudade...

[Muitos amigos de final de madrugada,
Um forte abraço, um até logo e tudo bem,
Mas o amigo verdadeiro sempre fica,
Pra qualquer hora, se preciso ele vem] Amigo Verdadeiro

domingo, 22 de julho de 2007

Deus nos pague.

É blog largado, é o quarto bagunçado, é livro se acumulando, é dívida pra pagar, é o vencimento do cartão batendo na porta, é bater perna na rua, é festa, é fim de festa, é tanta criança, é envelhecer antes do tempo, é sono, é aniversário de mãe chegando, é não ter dinheiro pra comprar presente, é roupa suja misturada com roupa limpa, é fazer besteiras, é tentar concertar, é o sonho da independência, é mais sonho que realidade, é lutar pela realidade, é querer abrir uma loja, é burocracia, é não ter dinheiro, é correr atrás, é perder o fôlego, é mudar de assunto, é amiga que vai embora, é a saudade já chegando, é dor de cabeça de manhã cedo, é gente morrendo, é avião caindo, é coração doendo, é tanto o que dizer e eu não saber nem por onde começar.
E ainda assim, eu tô voltando...

[Pelo prazer de chorar e pelo "estamos aí"
Pela piada no bar e o futebol pra aplaudir
Um crime pra comentar e um samba pra distrair
Por essa praia, essa saia, pelas mulheres daqui
O amor malfeito depressa, fazer a barba e partir
Pelo domingo que é lindo, novela, missa e gibi
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça, desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes, pingentes, que a gente tem que cair
Por mais um dia, agonia, pra suportar e assistir
Pelo rangido dos dentes, pela cidade a zunir
E pelo grito demente que nos ajuda a fugir:
Deus lhe pague] Deus Lhe Pague, Chico Buarque

terça-feira, 10 de julho de 2007

sede.

No décimo quinto andar de um dos prédios mais imponentes do centro da cidade, ele via pontinho de pessoas lá embaixo que mais pareciam pequenas formigas.
Sentou-se na poltrona satisfeito por pelo novo emprego, o novo cargo, a chefia.
Apertou um botão num segundo e no outro entrou na sala a secretária, nervosa, mostrando-lhe além de documentos muita disposição e eficiência:
- O senhor gostaria de tomar alguma coisa?
- Sim, por favor. Dê-me uma dose de whisk.
- Er... Não temos whisk – respondeu ela num emaranhar de mãos.
- Então traga conhaque!
- Na verdade nem conhaque, senhor.
Fitando-a por cima dos óculos ele falou impaciente:
- Minha filha, que seja vinho, tequila, cerveja... Qualquer coisa.
- Que tal um suco?
- Se tiver álcool... – respondeu dando com os ombros.
- Justamente, nós não temos álcool!
Foi então que pulou da cadeira assombrado:
- Nem em gel??

[Mais uma dose?
É claro que eu tô a fim
A noite nunca tem fim
Baby, por que a gente é assim?] Por que a gente é assim?, Barão Vermelho

segunda-feira, 9 de julho de 2007

vó Zefa.

Às vezes ela aparece com uma expressão preocupada e me diz num tom baixinho, como quem conta um segredo:
- O seu avô! Hoje ele não falou nada... Eu até pergunto as coisas pra ver se ele responde, mas nem isso... O que será?
E então eu digo que é assim mesmo, que tem dias que a gente quer ficar calado, pensando na vida.
Noutras vezes ela vem com um ar irritado, esbravejando:
- O seu avô! Falando como um louco pela casa. Sozinho! Eu já mandei calar a boca, mas quem disse que cala?
Eis a minha avó.

Mas a contradição veio desde sempre porque ao nasceu, morreu sua mãe. E por mais que não exista na sua memória uma recordação só sua, sem traços alheios, sem narrações de outros autores, ela a ama de tal forma que nada faz esse amor menor.
- Às vezes eu queria ser um passarinho só pra sair voando.
- E pra onde a senhora ia, vó?
- Pra todos os cantos! Para lugares que eu nunca fui... E também que estive pra saber como estão.
E então eu vejo naqueles olhos claros e distantes ela passeando pelo seu mundo de memórias.
Fala dos seus tempos de criança, da escola, palmatória e do quanto doía estudar!
- Relembrar o passado é sofrer duas vezes – me diz.
- Ou ser feliz duas vezes – eu digo.
- Depende da estória.
E fala coisas da semana passada como se fossem de décadas atrás e coisas de décadas atrás como se fosse da semana passada. Quando envelhecer, quero minhas estórias no meu rosto também!
Essa semana a vó Zefa fez oitenta e cinco anos. ;)


[Os anos ensinam muita coisa que os dias desconhecem] Emerson